Bom domingo a todos!
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Pensamentos e Pensadores
"O que sabemos é uma mínima parte do que ignoramos."
von Linné, 1735
domingo, 18 de abril de 2010
Pensamentos e Pensadores
"A chave para o avanço da ciência está em explicar a complexidade visível por meio de alguma simplicidade invisível."Jean Perrin, físico francês, ganhador do Prêmio Nobel de 1926
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Ensaio sobre a cegueira
terça-feira, 30 de março de 2010
A ciência esquecida de Leon Croizat
Por Gustavo Miranda
Atualmente, o grau de qualidade de um pesquisador é medido pela quantidade de artigos científicos publicados e se pelo menos alguns deles foram feitos em revistas de alto fator de impacto. Quase que comprovadamente, quem possui muitas publicações é considerado um pesquisador de grande qualidade e renome no meio científico, enquanto que o contrário, não tem tanto impacto assim. Muitas vezes isso pode ser considerado verdade, uma vez que os vários órgãos de fomento à pesquisa fazem com que quase todos tenham dinheiro suficiente para conduzir seus trabalhos, e, com isso, produzir resultados. Uma pessoa pobre ou de classe média que sozinha nunca conseguiria conduzir uma vida de cientista por ter que trabalhar e sustentar uma família ou a si mesmo, com esse tipo de apoio financeiro é capaz de alcançar o mundo acadêmico, contando é claro com muito esforço e um pouco de sorte.
Numa época não muito distante da nossa, em meados do século XIX, a quantidade de publicações muitas vezes não condizia com a qualidade do pesquisador. O valor científico dos manuscritos é que revelava a qualidade do cientista. Prova incontestável disso foi Charles Darwin, que em sua vida, além de publicar o livro A origem das espécies, escreveu pouco mais do que sobre cracas, movimento das plantas e minhocas. Porém, pela revolução causada por sua teoria (a da seleção natural), Darwin passou a ser um dos ícones da Biologia, muito mais que Alfred Russel Wallace, o outro autor da mesma teoria que, entretanto, é o primo pobre da história.
Como o ano da teoria da evolução já passou, podemos trocar um pouco de assunto e adentrar outros campos da Biologia. Apesar de a área de estudo mudar, o apreço por cientistas com muitas publicações e possuidores de uma condição monetária elevada continua. Leon Croizat foi uma das vítimas dessa injustiça acadêmica. Nascido na Itália em 1894, filho de comerciantes, e apaixonado pelas ciências naturais, Croizat não pôde seguir o natural caminho de um estudante para a universidade. Em 1914 foi convocado para servir o exército italiano na primeira guerra mundial.
Passada a guerra de trincheiras, Croizat pôde finalmente entrar na universidade graças a condições especiais dadas a veteranos de guerra, graduando-se em direito na universidade de Turim. Em 1922, época em que se preparava para fazer seu PhD e finalmente estudar as ciências naturais, foi forçado a abandonar seu país por razões políticas devido ao fascismo introduzido na Itália.
Em 1923, Croizat se instala nos Estados Unidos e enfrenta a severa realidade de um imigrante. Durante consideráveis quinze anos, realiza trabalhos precários e passa por tempos difíceis até finalmente conseguir um trabalho temporário na Universidade de Harvard. Ele tinha a função de mapear o terreno de Arboreto Arnold, localizado na própria universidade, trabalho este que foi a porta de entrada de Croizat na carreira científica. Terminado o mapeamento ele conseguiu um emprego de assistente técnico na instituição. Nos horários livres, se deleitava em uma das maiores coleções de plantas do mundo e uma das mais magníficas bibliotecas do planeta. Aos quarenta e quatro anos, Leon Croizat finalmente iniciava seu tão sonhado estudo do mundo natural.
Croizat mergulhou profundamente no estudo da botânica, sozinho e sem orientação. Conhecia por autodidatismo todas as línguas importantes da época e decidiu entender todo o pensamento da botânica ocidental desde seu início no século XVII. Comprometeu-se ainda a entender os padrões de distribuição geográfica de todas as plantas do mundo. Dedicou-se a esse trabalho durante dez anos (1938 a 1947) e anotava tudo o que lia, pensava ou percebia em diversos cadernos, que no final de sua pesquisa se espalhou por nada menos que quatrocentos volumes.
Com esse estudo, Croizat pôde analisar a distribuição de praticamente toda diversidade vegetal conhecida na época e comparar seus resultados com a distribuição de outros grupos, como minhocas, moluscos e aves. Logo ele percebeu que haviam padrões de distribuição repetidos entre as biotas. Na época, a idéia dominante era a do dispersionismo que propunha que os organismos tinham um centro de origem e desse ponto se dispersavam para outros lugares do planeta, sendo sua distribuição atual o resultado dessa dispersão. Porém, sua percepção foi além do senso comum.
Croizat se questionava como espécies de organismos com biologia e ecologia tão diferentes, seguiam padrões de dispersão tão semelhantes. Sua conclusão se baseou numa mudança revolucionária de perspectiva. Ele concluiu que não eram as biotas que se moviam juntas entre os continentes, mas os continentes que se moviam carregando as biotas consigo. Sua idéia deu grande suporte a teoria de Wegener da deriva continental, que na época estava em profundo descrédito. Indiretamente, Croizat conseguiu apenas com dados biológicos, provar uma teoria da geologia.
Prestes a completar dez anos em Harvard e conseguir estabilidade em seu cargo no emprego, Croizat foi demitido. Com isso, esvaiu-se sua chance de publicar a idéia pela universidade. Novamente encontrava-se sem emprego, sem diploma de biólogo, sem publicações, mas desta vez, com uma idéia revolucionária. Suas qualificações não o reputavam o bastante para conseguir bom emprego. Por sorte, conseguiu cargo como professor na universidade de Caracas, na Venezuela. Sua primeira posição acadêmica conseguida aos cinquenta e três anos.
Em Caracas, Croizat pôde finalmente colocar seus pensamentos em ordem. Ele postulava que as biotas atuais derivam de biotas ancestrais que se dividiram em resposta a mudanças geográficas, produzindo espécies vicariantes. A palavra vicariante tem sua raiz no italiano e significa representante. Espécies vicariantes já eram reconhecidas desde os tempos de Darwin e Wallace, mas foi Croizat quem fez uma análise das biotas como um todo. Sua tão revolucionária visão foi então denominada por ele mesmo de pan-biogeografia (biogeografia do todo). Ele não considerava sua idéia uma teoria, mas sim um método para se estudar padrões biogeográficos.
Dedicou-se então dez anos escrevendo volumosos livros, alinhando sequências de exemplos de variados grupos de plantas e animais, produzindo, finalmente, seu primeiro manuscrito, Panbiogeography, com cerca de mil páginas em três volumes. Porém, como pudemos observar até agora, a sorte não costumava andar muito ao lado de Croizat. Após pronto seu laborioso trabalho, nenhuma editora se interessou em publicar seus livros.
Contudo, devido a sua grande teimosia, Croizat pegou suas sacrificadas economias e publicou o livro de seu próprio bolso no ano de 1958, aos sessenta e quatro anos. No ano de 1964, publicou outro livro também com seu próprio dinheiro chamado Space, time, form: the biological synthesis, referente às suas idéias.
Após esses eventos de sofrido sucesso, Croizat finalmente começou a ser reconhecido na biogeografia mundial e a publicar artigos em revistas, apesar de serem de baixo prestígio. Provavelmente devido a sua adiantada idade, Croizat era avesso a novas idéias. Como exemplo, a teoria da tectônica de placas que surgiu na década de 60, afirmou definitivamente que seu método estava correto, porém, foi terminantemente refutada por ele. O surgimento da sistemática filogenética de Willi Hennig, que somado às suas idéias foi capaz de reconstituir a distribuição atual dos organismos, como fizeram Gareth Nelson, Norman Platnick e Donn Rosen, fazendo surgir a Biogeografia de Vicariância, também não foi aceita por um Croizat já com oitenta anos. Por causa dessas aversões à novidades, é considerado um dos cientista mais controversos da biologia do século XX.
Com isso, a figura de Leon Croizat foi gradualmente sendo ofuscada pelas novas e modernas teorias propostas por Nelson, Platnick, e Rosen o que fez com que a ciência e a história pouco a pouco o esquecesse. Porém, como bem disse Fernando Fernandez em seu livro O Poema Imperfeito, “essa figura serve como um maravilhoso exemplo para nos inspirar neste mundo atual no qual o mérito tantas vezes parece tão pouco valorizado, e os sonhos, tão distantes”.
Referências Bibliográficas:
FERNANDEZ, F., 2004. O poema imperfeito: Crônicas de Biologia, Conservação da Natureza e seus Heróis. Ed. UFPR, 257 pp.
COLACINO, C., 1997. Léon Croizat’s Biogeography and Macroevolution, or … “Out of Nothing, Nothing Comes”. Philipp. Scient. 34 (1997):73-88. (aqui)
segunda-feira, 29 de março de 2010
Ciência para um Aniversário
O blog Devaneios Biológicos vem com grande satisfação anunciar que hoje está completando um ano de existência! Apesar da falta de constância nas postagens devido a diversos fatores (aulas, provas, viagens, falta de inspiração), o blog vem tentando durante esse tempo divulgar um pouco da grande área da Biologia para um vasto público, tanto para o especializado quanto para os não ligados a área.
Gostaríamos de aproveitar para agradecer aos nossos leitores que sempre fazem inteligentes e valiosos comentários, que acrescentam os textos com novos argumentos e ricas observações, e pedir para que, na medida do possível, ajudem a divulgar o blog fazendo com que o laborioso trabalho dos autores não seja em vão, introduzindo cada vez mais pessoas na apreciação da beleza e dos mistérios dessa tão maravilhosa ciência.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Pensamentos e Pensadores
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Alterações climáticas e suas consequências em espécies invasoras
Esse texto faz parte do “Blog Action Day” que é um evento anual que reune blogueiros do mundo todo postando sobre o mesmo assunto e já conta com mais de 150 países, todos com os mesmos objetivos: informar e conscientizar o mundo. São mais de 10.000 blogs cadastrados com a intençao é chamar a atenção para a brusca mudança de temperatura que afeta nosso planeta. Para acessar os blogs inscritos e ler seus textos, clique na imagem a cima. Aqui vai o nosso.
Desde a época das grandes navegações, diversos tipos de animais e plantas são retiradas de sua hábitat natural, propositalmente ou não, e são espalhadas pelo mundo. Nos dias de hoje, esse intercâmbio acontece de modo muito mais eficiente, devido ao aumento da quantidade de navios circulando e dos aviões, que espalham esses organismos de modo muito mais rápido. As consequências geradas por essas espécies em novos ambientes podem ser catastróficas. Diferentemente dos animais do filme “Madagascar”, na natureza indivíduos de espécies diferentes não se reúnem para bolar uma fuga de volta ao local de origem nem se entopem de remédios contra depressão, como a girafa Melman. O mais natural é acontecer o que se passou com o leão Alex, e a maioria deles se tornem selvagens e adaptados ao meio. Porém, existem vários fatores que podem interferir na adaptação de um ser vivo em seu novo ambiente e o fator climático é um deles.
Iniciada na primeira Revolução Industrial na Inglaterra do século XV, grandes quantidades de carbono são liberadas na atmosfera. Esse excesso, que hoje tem contribuição da queima de florestas e de combustíveis fósseis, faz com que grande quantidade de calor seja absorvida pelo planeta ocasionando o aquecimento global. Toda essa alteração climática gera modificações nos mais diversos ambientes, desde cavernas, copas de árvores e campos abertos, até frestas em solos ou ambientes marinhos. Os diversos organismos, tanto nativos quanto invasores, presentes em cada um desses locais, responderão as alterações do clima de maneira diferente.
Pensando nisso, um grupo de pesquisadores de diversas universidades americanas e da Agência Americana de Proteção Ambiental, realizaram um estudo baseado nos diversos estágios pela qual uma espécie passa num processo de invasão, identificando cinco possíveis consequências da mudança climática sobre bichos invasores.
Segundo os autores, uma espécie exótica introduzida em um ambiente natural deve passar por filtros ambientais para se tornar efetivamente invasora. Os passos, que estão ilustrados na figura ao lado, são basicamente os seguintes: primeiro, a espécie deve ser transportada através de uma barreira geográfica, como um oceano, uma cadeia de montanhas ou uma estrada, até sua nova localização. A habilidade da espécie de passar pelo estágio de transporte depende da razão pela qual os indivíduos são movidos de um lugar para outro e sua viabilidade depois de chegar ao local. Segundo, a espécie deve sobreviver e tolerar as condições ambientais no local de chegada. Terceiro, a espécie deve adquirir recursos, construir interações com inimigos naturais e possivelmente formar relações mutualísticas no novo local. Espécies invasoras que se estabelecem com mais sucesso e que, consequentemente se tornam mais abundantes, são mais prováveis de ocasionarem um maior impacto na comunidade local. Finalmente, a espécie deve se dispersar, estabelecendo populações em novos locais do novo território.
Com base nesses passos, foi especificado cinco possíveis consequências das mudanças climáticas para espécies invasoras: alteração dos mecanismos de transporte e introdução, modificação das limitações climáticas, alteração da distribuição das espécies invasoras, modificação do impacto das espécies agora existentes, e alteração na efetividade de estratégias para espécies invasoras.
Para os autores, a mudança climática pela qual o planeta passa irá, inclusive, desafiar a atual definição de espécie invasora, chegando-se a seguinte definição: espécies invasoras são aquelas que foram introduzidas em um tempo recente e exercem um substancial impacto negativo na biota nativa, nos valores econômicos ou na saúde humana. Alguns táxons que anteriormente eram considerados invasores, podem diminuir seu impacto; outros, previamente considerados não-invasores, podem se tornar invasores; e muitas espécies nativas irão trocar suas distribuições geográficas, movendo-se para áreas onde antes eram ausentes.
Com isso, percebemos que não são somente os efeitos do aquecimento global associados diretamente com aspectos econômicos e sociais que podem gerar graves conseqüências para o planeta. Todos os desastres amplamente divulgados pela mídia como a elevação do nível do mar, seca, fome, miséria e muitos outros, podem se tornar realidade caso nenhuma medida drástica seja tomada rapida e efetivamente. Porém, além desses infortúnios, a alteração climática tem seus efeitos mais sutis, afetando pequenos grupos, em pequenas áreas, mas que podem gerar grandes catástrofes caso atinjam um nível fundamental de uma cadeia. O homem faz parte dessa cadeia, e assim como começou todo o processo nas grandes navegações e na revolução industrial, pode vir a acabar como qualquer outra espécie invasora que não conseguiu se adaptar a tempo às modificações ambientais criadas por ela mesma.
Referência Bibliográfica
Hellmann et al, 2008. Five Potential Consequences of Climate Change for Invasive Species. Conservation Biology, Volume 22, No. 3, 534–543 (aqui).
Sugestão de Referência
Vieira, Cristina Girão. Espécies exóticas invasoras – breves apontamentos. Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (aqui)