domingo, 2 de março de 2014

Quadrinhos e zoologia parte 3

Histórias em quadrinhos ou gibis (HQs) fazem parte da vida de todos nós. Independente da idade, o fascínio por esse meio de comunicação sobrevive por gerações. Os gibis são muito mais do que histórias de fantasias criadas para entreter crianças. As HQs possuem muitos detalhes, alusões e ideias sofisticadas, e essas abordagens podem ser aproveitadas de diversas formas, inclusive na sala de aula como uma alternativa para despertar o interesse e prender a atenção dos alunos.

Nesse sentido, o professor da disciplina Zoologia de Artrópodos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Elidiomar Ribeiro da Silva, decidiu inovar na sua abordagem de ensino dos insetos, crustáceos, aracnídeos e miriápodes. Ele propõe aos alunos que escolham um personagem de HQ que tenha sido inspirado em algum artrópode e que façam uma análise das características presentes nesses heróis e vilões. Com isso, ele consegue que os alunos busquem informações sobre a morfologia e comportamento dos animais de uma maneira completamente descontraída.

Isso é feito há mais de dois anos pelo professor e já existe um extenso banco de dados que conta com mais de 150 personagens catalogados. Isso só nos universos DC e Marvel. Dentre os insetos, por exemplo, 93 personagens de composição inspirada em algum hexápodo já foram identificados. Uma análise mais detalhada sobre presença dos insetos nos quadrinhos foi apresentada pelo professor em colaboração com alunos no II Simpósio de Entomologia do Rio de Janeiro (II Entomorio) realizado em setembro de 2013.

Análises foram aplicadas para verificar se a diferença no número de personagens com inspiração em insetos entre às editoras DC e Marvel era significativa e se a diferença no número de heróis e vilões apresentava suporte estatístico. Em ambos os casos o resultado foi não significativo. A diferença do número de heróis e vilões não ser significante foi surpreendente, já que era esperado um número de vilões muito maior que o de heróis uma vez que os insetos costumam ser considerados “nocivos” pelo público em geral (o valor encontrado foi de 47 vilões contra 36 heróis; alguns personagens foram considerados de posicionamento variável, como a Angel (Avengers (Vol. 1) 264 (1986)) e a Jaqueta Amarela (New X-Men (Vol.1) 118 (2001)), e outros de posicionamento indefinido, como a Chrysalis (Justice League Quaterly 17 [1994])).

Quanto à classificação taxonômica, os personagens analisados foram baseados majoritariamente em ordens de Holometabola (Coleoptera, Diptera, Hymenoptera, Lepidoptera, Mecoptera, Megaloptera, Siphonaptera) em relação às demais (Blattaria, Ephemeroptera, Hemiptera, Isoptera, Mantodea, Odonata, Orthoptera, Zygentoma).

Elidiomar e seu grupo concluíram ainda que, apesar do grande número de personagens com inspração em insetos, pouquíssimos são aqueles de reconhecido destaque. Na DC os únicos que podem ser considerados do primeiro escalão são o Besouro Azul II (Ted Kord) e o Besouro Azul III (Jaime Reyes). Na Marvel, merecem destaque apenas o Homem-Formiga I (Hank Pym) e a Vespa (Janet van Dyne). Na sua grande maioria os personagens são secundários, com participações esporádicas ou pontuais.

Abaixo, alguns personagens e suas respectivas inspirações.


Personagem: Hellgrammita (Hellgrammite), Roderick Rose
Editora: DC
Posicionamento: Vilão
Inspiração: Lacrau
Classificação: Ordem Megaloptera
Características entomológicas no personagem: presença de antenas e exoesqueleto; ausência de voo e seis pernas.
Personagem: Mariposa Assassina (Killer Moth), Drury Walker
Editora: DC
Posicionamento: Vilão
Inspiração: Mariposa
Classificação: Ordem Lepidoptera
Características entomológicas no personagem: presença de voo, antenas, e exoesqueleto; ausência de seis pernas.

Personagem: Besouro azul (Blue Beetle), Jaime Reyes
Editora: DC
Posicionamento: Herói
Inspiração: Besouro
Classificação: Ordem Coeloptera
Características entomológicas no personagem:
presença de voo e exoesqueleto; ausência de antenas e seis pernas.



Personagem: Homem Formiga I (Ant-Man), Hank Pym
Editora: Marvel
Posicionamento: Herói
Inspiração: Formiga
Classificação: Ordem Hymenoptera, Família Formicidae
Características entomológicas no personagem: presença de antenas; ausência de seis pernas e exoesqueleto.

Personagem: Libélula (Dragonfly), Veronica Dultry
Editora: Marvel
Posicionamento: Vilão
Inspiração: Libélula ou lavadeira
Classificação: Ordem Odonata
Características entomológicas no personagem: presença de voo e antenas; ausência de seis pernas e exoesqueleto.
Personagem: Vespa (Wasp), Janet Van Dyne
Editora: Marvel
Posicionamento: Herói
Inspiração: Vespas
Classificação: Ordem Hymenoptera
Características entomológicas no personagem: presença de voo e antenas; ausência de seis pernas e exoesqueleto.




O grupo também desenvolveu outros trabalhos analisando a zoologia de um modo geral e os aracnídeos nos quadrinhos, trabalhos esses que também foram apresentados em congressos científicos. Mais informações aqui para a zoologia e aqui para os aracnídeos.

Fonte das fotos:

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Um pedido das estrelas: o Planetário Digital

A espiralada via láctea.
A Astronomia estuda, dentre diversos assuntos, a origem e evolução do universo e, apesar de ser uma das ciências mais antigas do mundo e de ser fascinante, o ensino de Astronomia no Brasil é feito de forma superficial e com base em concepções alternativas de professores e alunos. Essas concepção prévias do universo são muitas vezes corroboradas por conceitos errados presentes nos próprios livros didáticos e na fala dos docentes. Nos últimos anos, astrônomos de todo o Brasil têm somando grande esforço para mudar esse cenário.

Alguns erros conceituais comuns presentes nos livros e nos discursos dos professores são a atribuição das diferenças entre as estações do ano à distância da Terra em relação ao Sol (sabe-se que a causa principal das estações do ano se deve ao fato da variação de calor recebida pelos diferentes hemisférios da Terra em função das diferentes posições desses hemisférios em relação ao Sol ao longo de um ano completo), a interpretação das fases da Lua como sendo eclipses lunares semanais (quando na verdade essas fases ocorrem devido à Lua mudar a sua aparência em razão do seu movimento em torno da Terra, em relação ao Sol, que ilumina determinadas porções da Lua, ao orbitar o nosso planeta), a concepção da existência de estrelas entre os planetas do Sistema Solar (as estrelas estão a distâncias bem superiores as do Sol em relação à Terra), dentre diversos outros equívocos comuns nos livros escolares e na fala dos docentes. Em adição a isso, os livros e os mestres muitas vezes falham de forma exemplar no incentivo à observação prática de fenômenos astronômicos.

Para mudar essa realidade, astrônomos buscam meios de capacitar professores do ensino fundamental e médio e levar a ciência para os colégios como uma tentativa de tornar o assunto mais atrativo para as crianças e adolescentes e para os educadores. Nesse sentido, a Sociedade Astronômica Brasileira realiza desde 1998 a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) que busca capacitar os mestres e encorajar os alunos interessados no assunto a aprofundar seus conhecimentos através de uma competição.

A olimpíada é realizada com a aplicação de provas para diferentes níveis que vão desde o ensino fundamental até o ensino médio, além da realização de atividades práticas noturnas e diurnas, como a localização de constelações, a construção de um relógio solar e a comparação dos volumes entre a Terra e a Lua. No final da disputa, os alunos são premiados com medalhas e certificados de participação. Aqueles que se destacam são selecionados para participar da Olimpíada Internacional de Astronomia, que em 2014 vai acontecer no Quirguistão.

A OBA do próximo ano (2015) provavelmente vai contar com uma grande novidade, um PLANETÁRIO DIGITAL. Esse planetário será uma estrutura inflável itinerante que terá apresentações audiovisuais interativas e educativas. O principal objetivo é preparar professores e educar os jovens, fazendo com que o ato de olhar para o céu se torne rotineiro e a Astronomia um assunto familiar para todos. Para que isso se torne realidade, os organizadores da Olimpíada estão arrecadando fundos para a compra do equipamento e você pode ajudar diretamente fazendo uma doação da quantia que quiser e puder. É só acessar esse link:


Planetário digital. 
Ajudando essa causa você vai contribuir diretamente para um ensino básico melhor e mais completo para milhões de crianças e adolescentes no Brasil e vai estimular professores e futuros educadores a ensinarem de forma correta e mais entusiasmada essa disciplina tão fascinante. Ajude a mudar cara do ensino brasileiro.

Para entender porquê a OBA está fazendo essa vaquinha leia esse texto do blog Meio Bit e assista este vídeo do Pirulla.
Para ler mais sobre dificuldades interpretadas nos discursos de professores em relação ao ensino de Astronomia, clique aqui e aqui.
Para saber mais sobre erros conceituais comuns presentes em livros didáticos de ciências, clique aqui.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

[Zoologia em foco #1] O tamanduaí

Tamanduá bandeira e sua língua comprida.
Foto: Animais em destaque.
Os tamanduás são interessantes mamíferos que podem ser facilmente identificados por várias características, como a cabeça alongada, a boca desprovida de dentes e uma língua muito comprida e pegajosa. O mais famoso desses animais é o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla Linnaeus, 1758) que é conhecido devido a sua beleza e grande tamanho. Porém, dentro do grupo que inclui todas as espécies de tamaduás (a ordem Pilosa, subordem Vermilingua) existem outras três espécies de animais igualmente bonitos e interessantes, que são o tamanduaí (Cyclopes didactylus (Linneus, 1758)), o tamanduá-do-norte (Tamandua mexicana (Saussure, 1860); única espécie que não ocorre no Brasil) e o tamanduá-mirim ou tamanduá-de-colete (Tamandua tetradactyla (Linneus, 1758)).

O tamanduaí é um pequeno mamífero (possui cerca de 50 cm de comprimento) que habita áreas florestadas desde o México (região mais ao norte) até a Bolívia, passando pela Colômbia, Venezuela, Trinidad, Guiana, Suriname, Guiana Francesa e Brasil. Nesse link pode ser visualizado um mapa que mostra toda a área de distribuição da espécie. 
Tamanduaí em sua típica posição de defesa.
Foto: Pedro Freire Dias
No nordeste Brasileiro existe uma população que está separada das outras por mais de 1000 km. Como essa área sofre intenso desmatamento, esse grupo de indivíduos está sob séria ameaça de extinção. Já o restante das  populações de tamanduaí possui grande área de distribuição, principalmente na bacia amazônica, e havendo pouca preocupação quanto a seu risco de extinção. Infelizmente, em algumas áreas é comum encontrar esses animais mantidos em cativeiro e, uma vez encarcerados, esses animais morrem em poucos dias.

A biologia de populações selvagens é pouco conhecida. Sabe-se que os tamanduaís são animais noturnos, arborícolas, que os machos são solitários e que as fêmeas dão à luz a somente um filhote por ano. Machos e fêmeas são territorialistas; o território de uma fêmea não cruza com o de outra e o espaço do macho geralmente abrange o de duas ou três fêmeas, de tal forma que ele sempre tem fêmea(s) a sua disposição. 

O principal alimento dos Cyclopes didactylus são formigas e cupins, mas outros insetos, como abelhas, também podem entrar na sua dieta.  A cauda é preênsil e auxilia o animal a caminhar sobre galhos. Nas patas dianteira estão presente duas garras grandes e proeminentes que são utilizadas para abrir cascos de árvores, cupinzeiros e formigueiros em busca de alimento e para proteção quando se sentem ameaçados. 


Fonte e mais informações:
Superina, M., F.R. Miranda, & A.M. Abba (2010). The 2010 Anteater Red List Assessment. Edentata 11(2): 96-114.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Quadrinhos e zoologia parte 2

Quem acompanha o blog lembra que há alguns anos um trabalho muito interessante e inovador integrando a zoologia e o mundo das Histórias em Quadrinhos (HQs) foi apresentado num evento científico da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Esse projeto de investigar a associação de personagens das HQs com a zoologia continua a pleno vapor encabeçado pelo professor Elidiomar Ribeiro da Silva e anda rendendo muitos frutos. Outros trabalhos  abordando o mesmo tema foram apresentados em eventos regionais no Rio de Janeiro e nesse ano de 2014 o projeto foi levado para o XXX Congresso Brasileiro de Zoologia. Dessa vez o tema central foram os aracnídeos e o resumo enviado para o evento nacional foi intitulado “Os aracnídeos como inspiração para personagens dos universos DC e Marvel”. Como era de se esperar, o poster apresentado foi um sucesso e teve enorme repercussão. Como resultado, o ilustre professor Elídiomar foi contatado e concedeu uma excelente entrevista para o blog Gene Repórter, na qual fala sobre o trabalho exposto e a importância do uso de HQs no ensino de ciências. Vale a pena conferir!

Entrevista com um entomólogo - Elidiomar Silva
Prof. Dr. Elidiomar Ribeiro da Silva é entomólogo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Recentemente, no XXX Congresso Brasileiro de Zoologia, seu grupo apresentou um trabalho inusitado no sisudo meio acadêmico: uma análise demográfica de personagens de quadrinhos de super-heróis das duas principais editoras do ramo (Marvel Comics e DC Comics) inspirados em aracnídeos. Foi o Luiz Bento, do Discutindo Ecologia, quem me chamou a atenção para o trabalho.

Abaixo reproduzo a íntegra da entrevista gentilmente concedida via email por Elidiomar Silva (e, ao fim, o resumo do trabalho).

Continue lendo aqui.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Extinto ou não extinto?

por Gustavo Miranda

Luto pela extinção de Neofelis nebulosa.
Fonte: Direito de Viver.
Há uma imagem circulando pela Internet que mostra o deslumbrante felino Neofelis nebulosa com uma declaração de luto devido à extinção da espécie. Essa notícia saiu na mídia em maio deste ano, mas só tive conhecimento recentemente. Dei uma procurada e descobri alguns detalhes que gostaria de expor aqui, pois na verdade, a espécie não está extinta.

Como todo grande felino, o leopardo-nebuloso tem uma ampla distribuição. Ele ocorre no Sudeste Asiático e no Himalaia (sul da China, Butão, Nepal, nordeste da Índia, Myanmar, Tailândia, Vietnam, Malásia, Camboja, Laos e Bangladesh).

Área de distribuição de Neofelis nebulosa. Fonte: WWF.
Há alguns anos especialistas em felinos analisaram populações de Neofelis nebulosa de diferentes localidades e consideraram que algumas das aglomerações do leopardo-nebuloso apresentavam diferenças morfológicas. Com isso, eles dividiram a espécie amplamente distribuída em três subespécies: N. nebulosa nebulosa, N. nebulosa brachyurus e N. nebulosa macrosceloides (uma quarta subespécie, N. nebulosa diardi, é atualmente considerada como uma espécie diferente (Neofelis diardi), como foi originalmente proposto por Cuvier (1823)).

A “espécie” extinta à qual a imagem que está circulando na Internet se refere é, na verdade, à subespécie N. nebulosa brachycephalus, que ocorre em Taiwan. Há biólogos que consideram que o nível taxonômico subespécie não existe, isso é, eles levam em conta somente a classificação até o nível de espécie. Se isso for considerado, pode-se dizer que "apenas" a população que ocorria em Taiwan foi extinta e não a espécie como um todo.

Independente do nível taxonômico, a extinção é lamentável e digna de pesar. O que está acontecendo com a Neofelis nebulosa (a fragmentação e destruição do seu habitat) é uma lástima e deve ser cessado imediatamente.  

Acredito que a mensagem na imagem tenha sido escrita com a intenção de impactar para chamar atenção e denunciar os terríveis impactos ambientais que o homem está causando ao meio ambiente. Contudo, é sempre bom levar em conta os detalhes para não obter e passar informações mutiladas.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pensamentos e pensadores

"Algumas medidas são cruciais para nossa compreensão do universo. Qual é, por exemplo, o diâmetro médio da Terra? É 12,742 quilômetros. Quantas estrelas existem na Via Láctea? Aproximadamente 10^11. Quantos genes existem num vírus? São 10 (no fago φX174). Qual a massa de um elétron? É de 9,1x10^-28 gramas. E quantas espécies de organismos existem na Terra? Nós não sabemos, nem mesmo na mais aproximada ordem de grandeza."

E.O. Wilson [1][2][3], 1985, p. 21.



p.s.: apesar de relativamente antiga, a afirmação de Wilson não deixou de ser atual; contudo, dispomos de uma estimativa recente da diversidade na Terra: Mora et al, 2011. How many species are there on Earth and on the Ocean? Plos Biology, 9(8).

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Mais uma espécie de Homo?

Análise comparativa 3D confirma o status de Homo floresiensis como uma espécie fóssil de Homo.

por Gustavo Miranda

Crânio de Homo floresiensis. Imagem: Brown et al., 2004.
Em 2003 foi descoberto um pequeno crânio de hominídeo na Ilha de Flores, Indonésia, que foi atribuído e uma nova espécie chamada Homo floresiensis. Esta espécie foi proposta como originária de uma população anã de Homo erectus.

Após a descoberta, H. floresiensis teve sua validade coloca em xeque quando estudos mostraram que possivelmente o pequeno tamanho poderia ser atribuído a diversas condições patológicas que resultariam em baixa estatura, como hipotireoidismo congênito, síndrome de Laron e microcefalia. Um trabalho recente, contudo, aplicou técnicas de morfometria geométrica 3D para comparar a forma do crânio do espécime de Homo floresiensis com outros fósseis humanos, assim como com crânios modernos que sofreram de microcefalia ou outras doenças.

O estudo encontrou evidências de que Homo floresiensis e espécies humanas extintas são mais proximamente relacionados entre si do que com humanos modernos com patologia. Com isso, foi refutada a hipótese de que esse espécime representa um humano moderno com condição patológica, suportando a existência da espécie H. floresiensis.

Referências
Brown P, Sutikna T, Morwood MJ, Soejono RP, Jatmiko, Saptomo EW & Due RA (2004). A new small-bodied hominin from Late Pleistocene of Flores, Indonesia. Nature 431: 1055-1061. Acesse aqui (trabalho de descrição de Homo floresiensis; se não tiver acesso, baixe aqui).
Baab KL, McNulty KP, Harvati K (2013).  Homo floresiensis Contextualized: A Geometric Morphometric Comparative Analysis of Fossil and Pathological Human Samples. PLoS ONE, 8(7): e69119. Acesse aqui (trabalho de morfometria geométrica 3D do crânio de H. floresiensis; acesso grátis).

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Boa Vista, péssima audição

Por Gustavo Miranda

Museu Nacional do Rio de Janeiro, Quinta da Boa Vista.
Poucas cidades brasileiras possuem lugares que fornecem à população contato direto com a natureza. O Rio de Janeiro é uma cidade privilegiada nesse sentido. Ela abriga uma das maiores áreas verde urbanas do mundo, a Floresta da Tijuca, assim como diversos outros lugares, como o Jardim Botânico, o Bosque da Barra, o Parque do Flamengo, o Parque Henrique Lage, o Parque Municipal do Mendanha, a Quinta da Boa Vista, além das praias do litoral carioca (são mais de 40, nem todas próprias para banho). Esses lugares são refúgios do dia-a-dia, momentos de fuga do estresse e da correria da vida cotidiana.

É muito bom estar no Rio de Janeiro e poder desfrutar de todas essas belezas naturais. Em particular, me sinto privilegiado por frequentar um lugar tão bonito e com uma história tão importante para o país como a Quinta da Boa Vista. Além do Zoológico e do Museu Nacional, o parque possui campos abertos, lagos, árvores e aves (além de muitos pivetes; se for passear por lá, cuidado!). Durante os finais de semana e feriados, muitas famílias se reúnem nessa área em São Cristóvão para um momento de descontração, para instantes de contato com a natureza em meio à selva de pedras. 

Devido a grande quantidade de árvores e de alimentos disponíveis, as aves são encontradas em grande abundância na Quinta da Boa Vista. Estima-se que essa área possua uma das maiores quantidades de espécies de aves livres do Rio de Janeiro. Contudo, é uma pena que nem todas as pessoas que lá frequentam se sintam à vontade. 

Outro dia estava entrando na Quinta e muitas aves estavam cantando e voando de uma árvore para outra; uma cena bonita de ser ver e ouvir. Um grupo de pessoas sentadas num dos gramados curtindo a manhã também reparou no grupo comentou: "Nossa, que barulho mais chato. Manda esses passarinhos calarem o bico, gritam alto pra caramba...".

Não sei se é por causa da minha cabeça de biólogo, mas fiquei indignado com o comentário. Quem em um parque cercado de aves se incomoda como o canto dos psitacídeos? Quer dizer que ouvir funk, samba, pagode ou qualquer outro ritmo musical a toda altura dá pra aturar, mas o cantarolar dos Psittaciformes incomoda o ouvidinho das moçoilas?

COMO E POR QUE AS AVES CANTAM?

Reconstrução em 3D de siringe.
Os sons das aves são produzidos pela siringe, uma estrutura formada por músculos e cartilagem localizada na traqueia. Ela tem a mesma função que as cordas vocais nos humanos, a vocalização.

Os Psittaciformes (araras, maritacas, papagaios entre outros) possuem um amplo repertório de cantos, muito dos quais não se conhece a função. Estudos indicam que existem cantos de voo, de contato, de alarme, de sentinela, de aviso sobre a disponibilidade de alimentos, de demarcação de território, de atração de parceiras dentre outros. 

As pessoas que reclamam do cantarolar dos bichos não imaginam o quanto eles (esses sim) são afetados pelos barulhos da cidade. Isso porque para combater o excesso de ruído, as aves tendem a aumentar a intensidade do canto ou adotar frequências mais agudas, já que o barulho urbano tem um espectro mais grave. Logo, com os ruídos elevados, as aves podem ser severamente prejudicadas, e as modificações no canto não são suficientes para manter a comunicação. Calcula-se que pode haver uma redução de 1500% na distância de comunicação de algumas espécies (veja aqui e aqui)!

Infelizmente não há leis no Brasil que protejam as aves desse tipo de interferência, ao contrário do que ocorre na Europa, por exemplo. Em alguns países europeus, barreiras acústicas são colocadas em rodovias ou avenidas que cortam ou passam ao lado de áreas habitadas ou onde há fauna representativa de aves. Com isso, o som dos veículos é refletido e retorna ao ponto da emissão, sem afetar muito o ambiente.

POR QUE FAZEMOS TANTO BARULHO?

Não temos capacidade natural de produzir diferentes tipos de sons como as aves. Nossas cordas vocais são limitadas à capacidade de produzir um espectro pequeno de volume e de tipos de ruídos. Por outro lado, inventamos MUITOS aparatos para fazer e/ou que fazem barulho. Carros, motos, ônibus, britadeiras, furadeiras, música alta... Pra se ter uma ideia, atualmente a poluição sonora é maior que a poluição da água; ela está em segundo lugar no ranking de poluições causadoras de doenças (atrás apenas da poluição do ar; dados da Organização Mundial de Saúde, OMS). Os otorrinolaringologistas recomendam que não se ouça sons por tempo prolongado acima de 80 decibéis (db) (que é em torno de metade da capacidade máxima de mp3, mp4, ipods, celulares, etc) caso contrário as células responsáveis por levar a informação sonora para o nervo auditivo (que vai transportar a informação para o cérebro) começam a se degradar levando a surdez. Em áreas residenciais o valor máximo recomendado pela OMS é de 50 db. Contudo, buzina de moto, barulho de caminhão, avião, britadeira e até os sons da feira passam dos 100 db (confira aqui).

Outro mal da humanidade são os carros que se acham trios elétricos. Há tempos isso virou moda, e muitos “machões” equipam seus carros com enormes alto falantes e deixam o volume no máximo para todos ouvirem sua (nunca) agradável música. Pra vocês que fazem isso, rapazes, aí vai um dado. Pesquisas recentes indicam que o volume da música que se coloca no carro é equivalente ao volume preenchido nas cuecas. Então fiquem atentos, pois as boates ambulantes que produzem podem estar denunciando ao invés de promovendo vocês...

Muita gente não sabe, mas existem leis que regulamentam a quantidade máxima de som permitida (aqui no Rio é esta). Infelizmente quase ninguém respeita essa lei. Quando nos sentimos incomodados e ligamos para a polícia para fazer uma denúncia, simplesmente nada é feito (experiência própria). Além de nenhum interesse dos policiais (que muitas vezes são comprados com algumas garrafas de cerveja [também experiência própria, já vi isso acontecer]), os policiais não contam com um decibelímetro para verificar a altura do som emitido (aí já é querer muito...).

Enfim, a tecnologia avançou e pouca foi a preocupação em se evitar ruídos excessivos dos equipamentos que utilizamos. Não há preocupação nem mesmo com nosso bem estar, quanto mais com os outros animais que nos cercam. Há o total desprezo, e esse desprezo leva a ignorância e a ignorância leva a completa falta de admiração com o bem mais precioso que possuímos que é nossa biodiversidade e suas nuances.

ALGUMAS AVES DA QUINTA DA BOA VISTA

Fonte das fotos e mais informações sobre as aves nos links:

Agradecimento
Gabriela Frickes - Setor Ornitologia, Museu Nacional do Rio de Janeiro/UFRJ

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