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| Museu Nacional do Rio de Janeiro, Quinta da Boa Vista. |
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| Reconstrução em 3D de siringe. |
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| Museu Nacional do Rio de Janeiro, Quinta da Boa Vista. |
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| Reconstrução em 3D de siringe. |
"Evolução é uma teoria, mas também é um fato. E os fatos e teorias são coisas diferentes, e não estágios de uma hierarquia crescente. Fatos são os dados do mundo. E teorias são as estruturas de ideias que explicam e interpretam os fatos."![]() |
| Stanley Miller e seu experimento em 1930. |
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| A Terra Pré-Cambriana. |
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| As moléculas de XNA. |
Por Bruno Tinoco
Há duas semanas, quando soube que iria estrear um novo filme baseado na produção original de 1968, Planet of the Apes (Planeta dos Macacos, em português), fiquei bastante animado. Sempre achei uma das ideias mais legais do cinema americano e, agora, teria a oportunidade de saber como os “macacos” dominaram a espécie humana e adquiriram certas faculdades ausentes nos grandes primatas do mundo real*, tais como fala, andar ereto e inteligência superior à do Homo sapiens, isto é, nós.
Assisti ontem o filme, logo na estreia, e vou compartilhar com vocês as minhas impressões e comentar determinadas passagens e conceitos que acho que merecem discussão. Desde já, adianto que fiquei satisfeito com o que vi e recomendo aos amigos. É seguramente um dos filmes (ao lado de Rio) que mais me empolgaram em 2011.
O filme gira em torno de um cientista (interpretado por James Franco) que luta por descobrir uma droga capaz de curar o Mal de Alzheimer, desta forma livrando o seu próprio pai do triste desfecho da doença. Para tanto, ele desenvolve uma droga que, ao que parece, trata-se de um transposon, isto é, um vírus com potencial de se inserir no genoma do hospedeiro e usar a sua maquinaria celular para propagação. Assim, este vírus, criado pela empresa Gen-Sys, seria capaz de produzir moléculas terapêuticas que atuariam de modo a eliminar os transtornos causados pelo Alzheimer. A droga, chamada de ALZ112, é então testada numa chimpanzé, cujo filhote, Cesar, passa a morar na residência do jovem cientista, após as pesquisas com o medicamente terem sido suspensas devido à perda de controle do animal.
Neste ponto vale uma primeira observação. Cesar era um OGM, ou seja, um organismo geneticamente modificado, já que herdou parte do seu genoma de sua mãe, cujo material genético já havia sido alterado pela suposta inserção viral. Há leis severas que controlam as pesquisas com OGMs em todo o mundo. É claro que, no cinema, se o bebê chimpanzé não tivesse ido morar com o pesquisador e recebido educação de ser humano, não haveria enredo para o filme.
Durante o crescimento, Cesar passa a manifestar sinais notórios de uma inteligência sem precedentes nos primatas selvagens. Em uma das marcantes passagens do filme, Cesar, enquanto era levado para passear em uma reserva natural, se vê diante de um cão preso a uma coleira por seus donos, fato que, surpreendentemente, o faz mergulhar numa profunda reflexão sobre qual o seu real papel naquela sociedade até então dominada pela espécie humana. Se eu pudesse ler a sua mente, diria que ele pensou: “Seria eu apenas um animal de estimação?”, assumindo uma postura típica de uma pessoa atormentada por crises existenciais.
No desenrolar d
a trama, Cesar é levado por autoridades a uma espécie de “cativeiro de luxo”, que, de luxuoso, não tem nada! É neste cativeiro que Cesar nos brinda com vários momentos de intensas reflexões. Em um dado momento, ele desenha a janela do seu antigo quarto na parede, como quem clama pelo regresso ao lar, numa clara tentativa de atenuar o sofrimento da prisão através de uma manifestação de arte. Noutra passagem, ainda no cativeiro, Cesar, sutilmente, imita a posição da histórica estátua O Pensador, do escultor francês Auguste Rodin, quando os diretores parecem querer preparar terreno para a iminência da ascenção dos primatas sobre a espécie humana.
A situação perde o controle quando um grupo de grandes primatas (a saber: chimpanzés, orangotangos e gorilas) escapam da prisão e libertam os outros “macacos” que estavam sendo mantidos como cobaias nas dependências da Gen-Sys. Liderados pelo carismático Cesar, os animais conseguem fugir da polícia americana para uma floresta.
E como os macacos vencem essa batalha com os seres humanos? Realmente, se fosse na base da força bruta, seria uma disputa relativamente simples em favor dos homens. Mas, um fato que não comentei, mas que foi decisivo para os rumos da história envolve uma propriedade do medicamente para o tratamento do Mal de Alzheimer. Se nos grandes primatas a droga era capaz de proporcionar faculdades fora do normal, em humanos, o medicamento trazia uma consequência nefasta. Ao que parece, as moléculas produzidas pelo genoma viral geravam uma letal reação de autoimunidade. Quando um dos pesquisadores que estudava o medicamento se infecta com o vírus, o problema deixa de ser apenas uma rebelião de macacos para se tornar a grande explicação para o declínio repentino da população humana no planeta. Em outras palavras, o medicamento, criado com o intuito de salvar vidas, passou a ser o maior vilão dos homens.
Também aqui cabe um comentário e uma citação histórica. A ideia da quase extinção da espécie humana apresentada no filme não é de todo absurda, já que, historicamente, nós temos exemplos de grandes populações que foram dizimadas ao entrarem em contato com um patógeno para o qual o organismo não exibia defesa imunológica. Podemos citar a introdução de patógenos pelos espanhóis no coração do império Inca, fato bem documentado no livro Armas, Germes e Aço, de Jared Diamond. É um interessante exemplo histórico de como uma minoria pode derrotar uma esmagadora maioria sem o uso da força bruta, em vez disso, com uma arma bem mais eficiente, a doença. Pelos meus cálculos, o pesquisador morre no filme após 3 dias de contato direto com o vírus. Diante deste cenário, realmente nem daria tempo de os meus colegas da FIOCRUZ desenvolverem uma vacina contra o vírus.
A fala nos macacos
Achei que deveria comentar essa peculiaridade após me sentir incomodado com uns risinhos debochados durante o filme. O filme é uma ficção científica, obviamente não podemos e nem devemos exigir rigor científico de um filme que se propõe ao entretenimento. Quem deseja se informar a respeito de publicações científicas sérias há inúmeros sites que disponibilizam artigos em revistas nacionais e internacionais para serem lidos. É só baixar, ler e ser feliz.
Sobre esta questão da fala, recomendo fortemente a leitura de um dos textos que publicamos neste blog, intitulado O caso FOXP2 – quando pequenas alterações provocam grandes mudanças. Lá é discutido um pouco sobre a história molecular evolutiva deste gene, que é associado à nossa intrínseca capacidade de falar. É oportuno lembrar as palavras de Sean B. Carroll quando ele nos diz que: “De modo geral, a evolução segue um padrão em mosaico, com diferentes características surgindo em diferentes momentos e evoluindo em taxas distintas ao longo da história.”
Sob um ponto de vista evolutivo, é evidente que fica frágil o argumento de uma droga com finalidade para terapia do Mal de Alzheimer poder gerar mudanças fisiológicas e comportamentais tão acentuadas nos primatas a pontos deles exibirem características essencialmente humanas, que são resultado de pelo menos 6 milhões de anos de transformação – tempo da divergência entre a nossa linhagem e a dos chimpanzés. Mas, também o bom senso nos diz que ninguém iria se divertir se o filme tivesse duração de 15 horas para os diretores tentarem fundamentar eventos que a natureza levou milhões de anos para moldar.
Certamente eu deixei passar muitos outros momentos marcantes deste filme, que vale muito à pena ser assistido como uma grande obra de ficção. Caso lembrem de mais fatos interessantes comentem que nós discutiremos.
Fico por aqui e até breve.
* Nós também somos grandes primatas.
Por Gustavo Miranda
A Zoologia é uma das áreas mais fascinantes da Biologia. O estudo da diversidade animal deslumbra o homem desde Adão (o primeiro possível taxonomista) até os zoólogos que se formam hoje em dia, passando, é claro, por Aristóteles, Darwin, Wallace e tantos outros grandes biólogos. Infelizmente, o modo como toda a informação gerada por esses pesquisadores (menos Adão e Darwin) é passada ao público é praticamente inacessível. Os artigos e monografias são publicados em uma linguagem seca, direta, sem muitos rodeios e recheada de termos técnicos muitas vezes ininterpretáveis. Além disso, o acesso aos periódicos onde esses trabalhos são publicados só é possível nas universidades e mesmo assim, nem todos os conteúdos são liberados. O que salva o público leigo desse vácuo de informação científica são os livros, vídeos e os raros blogs de divulgação científica. Porém, nem sempre foi assim.
Existiu no século XIX–XX um brilhante Biólogo Marinho chamado Walter Garsteng (1868-1949) cuja especialidade era larvas de invertebrados marinhos e as informações que esses imaturos fornecem sobre a evolução dos invertebrados. Garsteng, além de ser um proficiente cientista, tinha um dom especial em transmitir suas ideias; ele a fazia na forma de versos. Dentre os diversos poemas que escreveu se destacam (título em inglês e tradução livre): The ballad of Veliger, or how the gastropod got its twist (A balada da Véliger ou Como o Gastrópode Tornou-se Torcido), The amphiblastula and the origin of sponges (A Anfiblástula e a Origem das Esponjas), Mülleria and the ctenophore (Mülleria e o Ctenoforo) e Tornaria’s water-works (O “Trabalho Aquático” da Tornaria).
Dentre esses poemas, o mais famoso é “A balada da Véliger ou Como o Gastrópode Tornou-se Torcido”, o qual é transcrito a baixo (retirado do livro “Invertebrados” Brusca & Brusca, 2007). Nesse poema Garsteng relata o processo pelo qual poderia ter surgido a torção nos gastrópodes (caracóis e lesmas), sugerindo que a larva véliger utilizava tal mecanismo para se proteger de predadores. Atualmente, sabe-se que a torção do corpo desses moluscos não surgiu dessa maneira, mas para uma proposta inovadora na época, um poema é um ótimo jeito de se difundir a ideia. É extremamente raro ver um cientista escrever em versos e rimas o resulta de seu trabalho, mas essa poderia ser uma fonte de inspiração para que os pesquisadores atuais divulguem de forma mais descontraída e acessível o produto de seus tão árduos labores.
A balada da Véliger ou Como o Gastrópode Tornou-se Torcido
A véliger é um lépido marujo, o mais lépido do mar
A impelir seu pequeno bote, traz de cada lado, uma roda a girar;
Porém, quando o perigo ameaça seu apressado submersível,
Ela pára o motor, fecha a portinhola e submerge furtivamente.
A véliger testemunhou várias transformações nas pelágicas embarcações a motor;
A primeira que pilotou era nada mais do que uma antiga e lenta embarcação, com diminuta cabine à popa.
Um Arqueomolusco a modelou, à sua imagem e semelhança,
E, numa bolsa de manto, à sua retaguarda, ela trazia sempre guardadas suas brânquias e demais pertences.
Jovens Arqueomoluscos eram lançados ao mar despojados de tudo, a não ser um véu...
Algo como um aro, com movimento giratório próprio, a impulsioná-los, ao invés de serem transportados passivamente;
E, rodopiando cá e lá, iam um a um adquirindo feições parentais:
Concha no dorso, pé no ventre — as mais singulares das diminutas criaturas.
Porém, quando fortuitamente esbarravam em seus vizinhos no mar,
Celenterados com fios urticantes e artrópodes todo espinhosos,
Acreditem vocês, traídos por um de seus pontos fracos, tornavam-se presas fáceis...
Expostos na dianteira, seus frágeis lobos pré-orais não podiam ser recolhidos em salvo!
O pé, vejam só, a meia-nau, próximo ao aconchegante abrigo na popa,
Recolhia-se prontamente, deixando a cabeça exposta, à mercê de todo perigo.
Então, os Arqueomoluscos foram escasseando, sua linhagem definhando celeramente,
Quando, pasmem, chegou a salvação por um mero acidente.
Uma legião de filhotes um dia surgiu, alvoroçado, cheia de novidades,
Anunciando que seus retratores, direito e esquerdo, eram diferentes:
Suas adriças de estibordo, fixas à popa, sozinhas, serviam à cabeça,
Enquanto aquelas fixas a bombordo espraiavam-se de través e serviam à parte posterior do corpo.
Inimigos predadores, ainda perambulando à deriva em números imbatíveis,
Foram agora surpreendidos por táticas que frustaram seus planos para o jantar.
Ante a ameaça, suas presas sucumbiram, mas prontamente reagiram,
Recolhendo ao abrigo da concha suas partes mais brandas, vulneráveis, deixando exposto o pé com seu rígido escudo córneo.
Essa manobra tática (vide Lamarck) aperfeiçoou-se com a repetição,
Até que as partes envolvidas nessa artimanha adquiriram periodicidade,
E a torção, independente afora de qualquer estímulo externo,
Seguirá seu curso predeterminado, mesmo em um vidro de relógio no laboratório.
E assim foi, então, que a Véliger, triunfalmente torcida,
Adquiriu sua cabine à frente, nela abrigando seus apetrechos de navegação...
Uma Trocosfera, em armadura blindada, com um pé para operar a escotilha de proa,
E dupla-hélice para impulsioná-la para frente, com rapidez e prontidão.
Porém, quando esses novos velígeros retornaram ao lar de origem para ali aportar
E se estabelecerem como Gatrópodes com cavidade do mando à frente,
O Arqueomolusco buscou por uma fenda esconder sua vergonha e fracasso,
E, rangendo ameaçadoramente seus dentes córneos, sentiu chegada sua hora e, sucumbindo ao peso de seu revés, morreu.
Livro de Walter Garsteng - http://www.amazon.com/Larval-Forms-Other-Zoological-Verses/dp/0226284239
Walter Garsteng na rede social http://www.facebook.com/pages/Walter-Garstang/120373594675377
Para livros recentes de divulgação cientifica, acesse a seção Livros desse blog.
Por Gustavo Miranda
O fanatismo por história em quadrinhos (HQ’s) somado a um amplo conhecimento em zoologia, foi a inspiração inicial do Prof. Elidiomar Ribeiro da Silva em juntar essas duas áreas aparentemente distintas em um trabalho diferente. Unindo-se a ele um aluno entusiamado (este que vos escreve) com mais duas outras pessoas fãs de HQ’s, o resultado foi o trabaho intitulado “Inspiração animal para superpoderes e comportamentos nos universos Marvel e DC” apresentado na forma de pôster na III Jornada de Zoologia da UNIRIO. O trabalho acabou ganhando repercussão inesperada sendo tema de uma publicação do jornalista “Mutante X” no blog especializado em quadrinhos “O X da questão”. Segue abaixo a parte inicial do texto que continua no próprio blog. Vale a pena conferir!
Quadrinhos viram tema de estudo sobre zoologia
Aparentemente, animais e quadrinhos de super-heróis não tem qualquer ligação, correto? Nem tanto assim. Um grupo de alunos (sic) da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) desenvolveu um painel baseado na inspiração do comportamento animal para a criação de personagens de quadrinhos. Com o título Inspiração animal para superpoderes e comportamentos nos universos Marvel e DC, os autores Elidiomar Ribeiro da Silva, Gustavo Silva de Miranda, Rosilene Ramos Gonçalves eLuci Boa Nova Coelho dissertam sobre 50 personagens das duas editoras que têm seus nomes, poderes e comportamentos analisados à luz da Zoologia. Tudo com embasamento científico, claro, como manda um bom estudo.