quarta-feira, 3 de julho de 2013

Boa Vista, péssima audição

Por Gustavo Miranda

Museu Nacional do Rio de Janeiro, Quinta da Boa Vista.
Poucas cidades brasileiras possuem lugares que fornecem à população contato direto com a natureza. O Rio de Janeiro é uma cidade privilegiada nesse sentido. Ela abriga uma das maiores áreas verde urbanas do mundo, a Floresta da Tijuca, assim como diversos outros lugares, como o Jardim Botânico, o Bosque da Barra, o Parque do Flamengo, o Parque Henrique Lage, o Parque Municipal do Mendanha, a Quinta da Boa Vista, além das praias do litoral carioca (são mais de 40, nem todas próprias para banho). Esses lugares são refúgios do dia-a-dia, momentos de fuga do estresse e da correria da vida cotidiana.

É muito bom estar no Rio de Janeiro e poder desfrutar de todas essas belezas naturais. Em particular, me sinto privilegiado por frequentar um lugar tão bonito e com uma história tão importante para o país como a Quinta da Boa Vista. Além do Zoológico e do Museu Nacional, o parque possui campos abertos, lagos, árvores e aves (além de muitos pivetes; se for passear por lá, cuidado!). Durante os finais de semana e feriados, muitas famílias se reúnem nessa área em São Cristóvão para um momento de descontração, para instantes de contato com a natureza em meio à selva de pedras. 

Devido a grande quantidade de árvores e de alimentos disponíveis, as aves são encontradas em grande abundância na Quinta da Boa Vista. Estima-se que essa área possua uma das maiores quantidades de espécies de aves livres do Rio de Janeiro. Contudo, é uma pena que nem todas as pessoas que lá frequentam se sintam à vontade. 

Outro dia estava entrando na Quinta e muitas aves estavam cantando e voando de uma árvore para outra; uma cena bonita de ser ver e ouvir. Um grupo de pessoas sentadas num dos gramados curtindo a manhã também reparou no grupo comentou: "Nossa, que barulho mais chato. Manda esses passarinhos calarem o bico, gritam alto pra caramba...".

Não sei se é por causa da minha cabeça de biólogo, mas fiquei indignado com o comentário. Quem em um parque cercado de aves se incomoda como o canto dos psitacídeos? Quer dizer que ouvir funk, samba, pagode ou qualquer outro ritmo musical a toda altura dá pra aturar, mas o cantarolar dos Psittaciformes incomoda o ouvidinho das moçoilas?

COMO E POR QUE AS AVES CANTAM?

Reconstrução em 3D de siringe.
Os sons das aves são produzidos pela siringe, uma estrutura formada por músculos e cartilagem localizada na traqueia. Ela tem a mesma função que as cordas vocais nos humanos, a vocalização.

Os Psittaciformes (araras, maritacas, papagaios entre outros) possuem um amplo repertório de cantos, muito dos quais não se conhece a função. Estudos indicam que existem cantos de voo, de contato, de alarme, de sentinela, de aviso sobre a disponibilidade de alimentos, de demarcação de território, de atração de parceiras dentre outros. 

As pessoas que reclamam do cantarolar dos bichos não imaginam o quanto eles (esses sim) são afetados pelos barulhos da cidade. Isso porque para combater o excesso de ruído, as aves tendem a aumentar a intensidade do canto ou adotar frequências mais agudas, já que o barulho urbano tem um espectro mais grave. Logo, com os ruídos elevados, as aves podem ser severamente prejudicadas, e as modificações no canto não são suficientes para manter a comunicação. Calcula-se que pode haver uma redução de 1500% na distância de comunicação de algumas espécies (veja aqui e aqui)!

Infelizmente não há leis no Brasil que protejam as aves desse tipo de interferência, ao contrário do que ocorre na Europa, por exemplo. Em alguns países europeus, barreiras acústicas são colocadas em rodovias ou avenidas que cortam ou passam ao lado de áreas habitadas ou onde há fauna representativa de aves. Com isso, o som dos veículos é refletido e retorna ao ponto da emissão, sem afetar muito o ambiente.

POR QUE FAZEMOS TANTO BARULHO?

Não temos capacidade natural de produzir diferentes tipos de sons como as aves. Nossas cordas vocais são limitadas à capacidade de produzir um espectro pequeno de volume e de tipos de ruídos. Por outro lado, inventamos MUITOS aparatos para fazer e/ou que fazem barulho. Carros, motos, ônibus, britadeiras, furadeiras, música alta... Pra se ter uma ideia, atualmente a poluição sonora é maior que a poluição da água; ela está em segundo lugar no ranking de poluições causadoras de doenças (atrás apenas da poluição do ar; dados da Organização Mundial de Saúde, OMS). Os otorrinolaringologistas recomendam que não se ouça sons por tempo prolongado acima de 80 decibéis (db) (que é em torno de metade da capacidade máxima de mp3, mp4, ipods, celulares, etc) caso contrário as células responsáveis por levar a informação sonora para o nervo auditivo (que vai transportar a informação para o cérebro) começam a se degradar levando a surdez. Em áreas residenciais o valor máximo recomendado pela OMS é de 50 db. Contudo, buzina de moto, barulho de caminhão, avião, britadeira e até os sons da feira passam dos 100 db (confira aqui).

Outro mal da humanidade são os carros que se acham trios elétricos. Há tempos isso virou moda, e muitos “machões” equipam seus carros com enormes alto falantes e deixam o volume no máximo para todos ouvirem sua (nunca) agradável música. Pra vocês que fazem isso, rapazes, aí vai um dado. Pesquisas recentes indicam que o volume da música que se coloca no carro é equivalente ao volume preenchido nas cuecas. Então fiquem atentos, pois as boates ambulantes que produzem podem estar denunciando ao invés de promovendo vocês...

Muita gente não sabe, mas existem leis que regulamentam a quantidade máxima de som permitida (aqui no Rio é esta). Infelizmente quase ninguém respeita essa lei. Quando nos sentimos incomodados e ligamos para a polícia para fazer uma denúncia, simplesmente nada é feito (experiência própria). Além de nenhum interesse dos policiais (que muitas vezes são comprados com algumas garrafas de cerveja [também experiência própria, já vi isso acontecer]), os policiais não contam com um decibelímetro para verificar a altura do som emitido (aí já é querer muito...).

Enfim, a tecnologia avançou e pouca foi a preocupação em se evitar ruídos excessivos dos equipamentos que utilizamos. Não há preocupação nem mesmo com nosso bem estar, quanto mais com os outros animais que nos cercam. Há o total desprezo, e esse desprezo leva a ignorância e a ignorância leva a completa falta de admiração com o bem mais precioso que possuímos que é nossa biodiversidade e suas nuances.

ALGUMAS AVES DA QUINTA DA BOA VISTA

Fonte das fotos e mais informações sobre as aves nos links:

Agradecimento
Gabriela Frickes - Setor Ornitologia, Museu Nacional do Rio de Janeiro/UFRJ

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Pensamentos e pensadores

"Vejo a natureza como uma estrutura magnífica que podemos compreender apenas imperfeitamente e que deveria inspirar em qualquer pessoa com capacidade de reflexão um sentimento de humildade"

Albert Einstein, físico (1879-1955).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Pensamentos e Pensadores

"Evolução é uma teoria, mas também é um fato. E os fatos e teorias são coisas diferentes, e não estágios de uma hierarquia crescente. Fatos são os dados do mundo. E teorias são as estruturas de ideias que explicam e interpretam os fatos."

Stephen Jay Gould, 1992. A Galinha e seus dentes e outras reflexões sobre a história natural, p. 254.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Descoberto o precursor da vida*


Por Gustavo Miranda e Bruno Tinoco

Uma pergunta que há muito tempo intriga biólogos, químicos, físicos, filósofos ou qualquer um que pense a respeito, é como a vida surgiu. Observamos atualmente uma diversidade de organismos  impressionante com cinco reinos (ou mais), dezenas de filos, centenas de classes, milhares de famílias e milhões de espécies, mas não sabemos o que iniciou nem como se originou toda essa diversidade. Pensar qual foi o ponto de partida para tudo isso e supor como isso ocorreu é algo realmente interessante e algumas propostas foram feitas ao longo da história.

A vida veio na cauda de um cometa?

As teorias em voga tratando a respeito da origem da vida na Terra são a da Panspermia e a da Evolução Orgânica da Matéria. A primeira assume que a vida se originou no espaço e veio para a Terra em um meteoro, ideia que ganhou suporte após a queda de um corpo celeste no México em 1969, o meteorito Allende, e que trouxe consigo aminoácidos (as estruturas básicas das proteínas). Contudo, esses aminoácidos são considerados exóticos, ou seja, não ocorrem no sistema químico das coisas vivas desse planeta, o que diminuiu um pouco a possibilidade de a vida ter vindo de fora de nossa atmosfera. Por conta disso, atualmente a teoria extraterrestre da origem da vida não é considerada pela maioria dos cientistas.
Stanley Miller e seu experimento em 1930.
A outra teoria, a da Evolução Orgânica da Matéria, é amplamente aceita sendo inclusive ensinada nos livros de ensino fundamental e médio. Ela é popularmente conhecida como a hipótese de Oparin-Haldane. Essa teoria diz que a atmosfera Pré-Cambriana (a mais antiga das eras) era composta por hidrogênio, metano, água, dióxido de carbono, nitrogênio e amônia. Esses gases expostos a altas temperaturas e sendo constantemente atingidos por descargas elétricas (raios) originaram, depois de milhões de anos sob estas condições, moléculas orgânicas. Na tentativa de reproduzir essa atmosfera primitiva em laboratório, Stanley Miller criou um sistema (que ficou conhecido como experimento de Miller) no qual ele obteve como produto final de sua experimentação aminoácidos, reproduzindo o que poderia ser o mar antigo: um grande caldo de aminoácidos, a sopa primordial. Apesar desse ensaio deixar a impressão de ser a prova de como a vida surgiu na Terra, o experimento de Miller apenas afirmou que as condições atmosféricas pensadas existirem há época permitiriam a formação de matéria orgânica a partir de matéria inorgânica. Segundo Marcelo Gleiser, a vida se define como sendo um “conjunto de reações químicas autossustentáveis capaz de absorver energia do meio ambiente e de se reproduzir”. Dessa forma, as primeiras células além de possuírem compostos orgânicos em sua composição, deveriam ter um aparato que as permitissem produzir proteínas e enzimas aptas para captar e metabolizar nutrientes do meio ambiente e para realizar reprodução, ou seja, ter um aparato genético capaz de realizar processos um tanto quanto complexos.

A molécula da complexidade

A Terra Pré-Cambriana.
As interações das primeiras moléculas orgânicas no “caldo primordial” teriam crescido conforme suas concentrações aumentavam e as reações originadas por elas levariam a construção de moléculas maiores e mais complexas. Imagina-se que a vida pré-celular teria começado com a formação de ácidos nucléicos [o ácido desoxiribonucleico (DNA) e o ácido ribonucleico (RNA)], que desempenhariam as funções metabólicas vitais para a sobrevivência e reprodução do aglomerado celular. Eventualmente as pré-células teriam se fechado numa membrana lipidica-protéica, as quais resultariam nas primeiras células.

Durante alguns milhões de anos a molécula candidata a precursora da informação genética no início da vida era o RNA, apesar de na maioria das vezes o DNA receber tal crédito. O RNA em princípio poderia desempenhar um papel de armazenador de informação hereditária (como faz o DNA hoje em dia) e ao mesmo tempo de catalisador de reações químicas, tal qual uma enzima. De fato, são conhecidas moléculas de RNA que desempenham papel semelhante a enzimas, as chamadas ribozimas. Esse cenário do RNA desempenhando múltiplas funções no surgimento da vida recebeu o nome de Mundo de RNA.

O X da questão

As moléculas de XNA.
Recentemente, pesquisadores do Medical Reserach Council Laboratory of Molecular Biology de Cambridge, na Inglaterra, desenvolveram em laboratório moléculas semelhantes aos ácidos nucleicos (DNA e RNA), os chamados XNA. Essas moléculas diferem dos ácidos nucleicos tradicionais pela substituição do açúcar da molécula (ribose ou desoxirribose), por outros compostos. Por isso o “X” na sigla, que significa xeno para indicar algo diferente ao que se é conhecido. As novidades na pesquisa liderada por um brasileiro, o Dr. Vitor Pinheiro, não são os diferentes tipos de ácidos nucléicos em si, mas sim a capacidade que essas moléculas possuem de serem acessadas e replicadas por enzimas polimerases específicas com suas informações muito pouco modificadas, ou seja, capazes de evoluir! Além de conseguir realizar replicação, isto é, construir cópias praticamente idênticas a original, essas proteínas conseguem converter o XNA em DNA e vice versa. Mas o que isso tem a ver com a origem da vida?
Essa nova descoberta nos leva a pensar se tanto o RNA quanto o DNA foram as primeiras moléculas responsáveis por transmitir a informação genética às células descendentes no início do surgimento da vida. Possivelmente não. Talvez o DNA e o RNA sejam somente duas das diversas moléculas que existiam no caldo primordial e que se saíram melhor na briga pela vida, literalmente. É provável que essas novas informações a respeito do XNA venham elucidar uma das maiores questões que sempre intrigaram os pensadores. Estaríamos perto, afinal, de explicar de onde viemos? 


REFERÊNCIAS
Gleiser, M, 2010. Criação imperfeita. Cosmo, vida e o código oculto da natureza. Ed. Record, 4ª edição.
Gonzalez, R.T., 2012. XNA is synthetic DNA that's stronger than the real thing. Disponível em <http://io9.com/5903221/meet-xna-the-first-synthetic-dna-that-evolves-like-the-real-thing> 
Pinheiro V. B. et al., 2012. Synthetic Genetic Polymers Capable of Heredity and Evolution. Science, 336: 341-344.


*O texto não expõe sobre uma solução definitiva à questão do precursor da vida, o título é só para despertar a curiosidade do leitor.


terça-feira, 1 de maio de 2012

Pensamentos e Pensadores

"Ninguém cometeu maior erro do que aquele que não fez nada só porque podia fazer muito pouco" 


Edmund Burke, filósofo e político 

sábado, 27 de agosto de 2011

Resenha do filme Planeta dos Macacos – A Origem

Por Bruno Tinoco

Há duas semanas, quando soube que iria estrear um novo filme baseado na produção original de 1968, Planet of the Apes (Planeta dos Macacos, em português), fiquei bastante animado. Sempre achei uma das ideias mais legais do cinema americano e, agora, teria a oportunidade de saber como os “macacos” dominaram a espécie humana e adquiriram certas faculdades ausentes nos grandes primatas do mundo real*, tais como fala, andar ereto e inteligência superior à do Homo sapiens, isto é, nós.

Assisti ontem o filme, logo na estreia, e vou compartilhar com vocês as minhas impressões e comentar determinadas passagens e conceitos que acho que merecem discussão. Desde já, adianto que fiquei satisfeito com o que vi e recomendo aos amigos. É seguramente um dos filmes (ao lado de Rio) que mais me empolgaram em 2011.

O filme gira em torno de um cientista (interpretado por James Franco) que luta por descobrir uma droga capaz de curar o Mal de Alzheimer, desta forma livrando o seu próprio pai do triste desfecho da doença. Para tanto, ele desenvolve uma droga que, ao que parece, trata-se de um transposon, isto é, um vírus com potencial de se inserir no genoma do hospedeiro e usar a sua maquinaria celular para propagação. Assim, este vírus, criado pela empresa Gen-Sys, seria capaz de produzir moléculas terapêuticas que atuariam de modo a eliminar os transtornos causados pelo Alzheimer. A droga, chamada de ALZ112, é então testada numa chimpanzé, cujo filhote, Cesar, passa a morar na residência do jovem cientista, após as pesquisas com o medicamente terem sido suspensas devido à perda de controle do animal.

Neste ponto vale uma primeira observação. Cesar era um OGM, ou seja, um organismo geneticamente modificado, já que herdou parte do seu genoma de sua mãe, cujo material genético já havia sido alterado pela suposta inserção viral. Há leis severas que controlam as pesquisas com OGMs em todo o mundo. É claro que, no cinema, se o bebê chimpanzé não tivesse ido morar com o pesquisador e recebido educação de ser humano, não haveria enredo para o filme.

Durante o crescimento, Cesar passa a manifestar sinais notórios de uma inteligência sem precedentes nos primatas selvagens. Em uma das marcantes passagens do filme, Cesar, enquanto era levado para passear em uma reserva natural, se vê diante de um cão preso a uma coleira por seus donos, fato que, surpreendentemente, o faz mergulhar numa profunda reflexão sobre qual o seu real papel naquela sociedade até então dominada pela espécie humana. Se eu pudesse ler a sua mente, diria que ele pensou: “Seria eu apenas um animal de estimação?”, assumindo uma postura típica de uma pessoa atormentada por crises existenciais.

No desenrolar da trama, Cesar é levado por autoridades a uma espécie de “cativeiro de luxo”, que, de luxuoso, não tem nada! É neste cativeiro que Cesar nos brinda com vários momentos de intensas reflexões. Em um dado momento, ele desenha a janela do seu antigo quarto na parede, como quem clama pelo regresso ao lar, numa clara tentativa de atenuar o sofrimento da prisão através de uma manifestação de arte. Noutra passagem, ainda no cativeiro, Cesar, sutilmente, imita a posição da histórica estátua O Pensador, do escultor francês Auguste Rodin, quando os diretores parecem querer preparar terreno para a iminência da ascenção dos primatas sobre a espécie humana.

A situação perde o controle quando um grupo de grandes primatas (a saber: chimpanzés, orangotangos e gorilas) escapam da prisão e libertam os outros “macacos” que estavam sendo mantidos como cobaias nas dependências da Gen-Sys. Liderados pelo carismático Cesar, os animais conseguem fugir da polícia americana para uma floresta.

E como os macacos vencem essa batalha com os seres humanos? Realmente, se fosse na base da força bruta, seria uma disputa relativamente simples em favor dos homens. Mas, um fato que não comentei, mas que foi decisivo para os rumos da história envolve uma propriedade do medicamente para o tratamento do Mal de Alzheimer. Se nos grandes primatas a droga era capaz de proporcionar faculdades fora do normal, em humanos, o medicamento trazia uma consequência nefasta. Ao que parece, as moléculas produzidas pelo genoma viral geravam uma letal reação de autoimunidade. Quando um dos pesquisadores que estudava o medicamento se infecta com o vírus, o problema deixa de ser apenas uma rebelião de macacos para se tornar a grande explicação para o declínio repentino da população humana no planeta. Em outras palavras, o medicamento, criado com o intuito de salvar vidas, passou a ser o maior vilão dos homens.

Também aqui cabe um comentário e uma citação histórica. A ideia da quase extinção da espécie humana apresentada no filme não é de todo absurda, já que, historicamente, nós temos exemplos de grandes populações que foram dizimadas ao entrarem em contato com um patógeno para o qual o organismo não exibia defesa imunológica. Podemos citar a introdução de patógenos pelos espanhóis no coração do império Inca, fato bem documentado no livro Armas, Germes e Aço, de Jared Diamond. É um interessante exemplo histórico de como uma minoria pode derrotar uma esmagadora maioria sem o uso da força bruta, em vez disso, com uma arma bem mais eficiente, a doença. Pelos meus cálculos, o pesquisador morre no filme após 3 dias de contato direto com o vírus. Diante deste cenário, realmente nem daria tempo de os meus colegas da FIOCRUZ desenvolverem uma vacina contra o vírus.

A fala nos macacos

Achei que deveria comentar essa peculiaridade após me sentir incomodado com uns risinhos debochados durante o filme. O filme é uma ficção científica, obviamente não podemos e nem devemos exigir rigor científico de um filme que se propõe ao entretenimento. Quem deseja se informar a respeito de publicações científicas sérias há inúmeros sites que disponibilizam artigos em revistas nacionais e internacionais para serem lidos. É só baixar, ler e ser feliz.

Sobre esta questão da fala, recomendo fortemente a leitura de um dos textos que publicamos neste blog, intitulado O caso FOXP2 – quando pequenas alterações provocam grandes mudanças. Lá é discutido um pouco sobre a história molecular evolutiva deste gene, que é associado à nossa intrínseca capacidade de falar. É oportuno lembrar as palavras de Sean B. Carroll quando ele nos diz que: “De modo geral, a evolução segue um padrão em mosaico, com diferentes características surgindo em diferentes momentos e evoluindo em taxas distintas ao longo da história.”

Sob um ponto de vista evolutivo, é evidente que fica frágil o argumento de uma droga com finalidade para terapia do Mal de Alzheimer poder gerar mudanças fisiológicas e comportamentais tão acentuadas nos primatas a pontos deles exibirem características essencialmente humanas, que são resultado de pelo menos 6 milhões de anos de transformação – tempo da divergência entre a nossa linhagem e a dos chimpanzés. Mas, também o bom senso nos diz que ninguém iria se divertir se o filme tivesse duração de 15 horas para os diretores tentarem fundamentar eventos que a natureza levou milhões de anos para moldar.

Certamente eu deixei passar muitos outros momentos marcantes deste filme, que vale muito à pena ser assistido como uma grande obra de ficção. Caso lembrem de mais fatos interessantes comentem que nós discutiremos.

Fico por aqui e até breve.

* Nós também somos grandes primatas.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Divulgação de ciência e a larva véliger

Por Gustavo Miranda

A Zoologia é uma das áreas mais fascinantes da Biologia. O  estudo da diversidade animal deslumbra o homem desde Adão (o primeiro possível taxonomista) até os zoólogos que se formam hoje em dia, passando, é claro, por Aristóteles, Darwin, Wallace e tantos outros grandes biólogos. Infelizmente, o modo como toda a informação gerada por esses pesquisadores (menos Adão e Darwin) é passada ao público é praticamente inacessível. Os artigos e monografias são publicados em uma linguagem seca, direta, sem muitos rodeios e recheada de termos técnicos muitas vezes ininterpretáveis. Além disso, o acesso aos periódicos onde esses trabalhos são publicados só é possível nas universidades e mesmo assim, nem todos os conteúdos são liberados. O que salva o público leigo desse vácuo de informação científica são os livros, vídeos e os raros blogs de divulgação científica. Porém, nem sempre foi assim.

Existiu no século XIX–XX um brilhante Biólogo Marinho chamaWalterGarstangdo Walter Garsteng (1868-1949) cuja especialidade era larvas de invertebrados marinhos e as informações que esses imaturos fornecem sobre a evolução dos invertebrados. Garsteng, além de ser um proficiente cientista, tinha um dom especial em transmitir suas ideias; ele a fazia na forma de versos. Dentre os diversos poemas que escreveu se destacam (título em inglês e tradução livre): The ballad of Veliger, or how the gastropod got its twist (A balada da Véliger ou Como o Gastrópode Tornou-se Torcido), The amphiblastula and the origin of sponges (A Anfiblástula e a Origem das Esponjas), Mülleria and the ctenophore (Mülleria e o Ctenoforo) e Tornaria’s water-works (O “Trabalho Aquático” da Tornaria).

Dentre esveligerses poemas, o mais famoso é “A balada da Véliger ou Como o Gastrópode Tornou-se Torcido”, o qual é transcrito a baixo (retirado do livro “Invertebrados” Brusca & Brusca, 2007). Nesse poema Garsteng relata o processo pelo qual poderia ter surgido a torção nos gastrópodes (caracóis e lesmas), sugerindo que a larva véliger utilizava tal mecanismo para se proteger de predadores. Atualmente, sabe-se que a torção do corpo desses moluscos não surgiu dessa maneira, mas para uma proposta inovadora na época, um poema é um ótimo jeito de se difundir a ideia. É extremamente raro ver um cientista escrever em versos e rimas o resulta de seu trabalho, mas essa poderia ser uma fonte de inspiração para que os pesquisadores atuais divulguem de forma mais descontraída e acessível o produto de seus tão árduos labores.

A balada da Véliger ou Como o Gastrópode Tornou-se Torcido

A véliger é um lépido marujo, o mais lépido do mar

A impelir seu pequeno bote, traz de cada lado, uma roda a girar;

Porém, quando o perigo ameaça seu apressado submersível,

Ela pára o motor, fecha a portinhola e submerge furtivamente.

A véliger testemunhou várias transformações nas pelágicas embarcações a motor;

A primeira que pilotou era nada mais do que uma antiga e lenta embarcação, com diminuta cabine à popa.

Um Arqueomolusco a modelou, à sua imagem e semelhança,

E, numa bolsa de manto, à sua retaguarda, ela trazia sempre guardadas suas brânquias e demais pertences.

Jovens Arqueomoluscos eram lançados ao mar despojados de tudo, a não ser um véu...

Algo como um aro, com movimento giratório próprio, a impulsioná-los, ao invés de serem transportados passivamente;

E, rodopiando cá e lá, iam um a um adquirindo feições parentais:

Concha no dorso, pé no ventre — as mais singulares das diminutas criaturas.

Porém, quando fortuitamente esbarravam em seus vizinhos no mar,

Celenterados com fios urticantes e artrópodes todo espinhosos,

Acreditem vocês, traídos por um de seus pontos fracos, tornavam-se presas fáceis...

Expostos na dianteira, seus frágeis lobos pré-orais não podiam ser recolhidos em salvo!

O pé, vejam só, a meia-nau, próximo ao aconchegante abrigo na popa,

Recolhia-se prontamente, deixando a cabeça exposta, à mercê de todo perigo.

Então, os Arqueomoluscos foram escasseando, sua linhagem definhando celeramente,

Quando, pasmem, chegou a salvação por um mero acidente.

Uma legião de filhotes um dia surgiu, alvoroçado, cheia de novidades,

Anunciando que seus retratores, direito e esquerdo, eram diferentes:

Suas adriças de estibordo, fixas à popa, sozinhas, serviam à cabeça,

Enquanto aquelas fixas a bombordo espraiavam-se de través e serviam à parte posterior do corpo.

Inimigos predadores, ainda perambulando à deriva em números imbatíveis,

Foram agora surpreendidos por táticas que frustaram seus planos para o jantar.

Ante a ameaça, suas presas sucumbiram, mas prontamente reagiram,

Recolhendo ao abrigo da concha suas partes mais brandas, vulneráveis, deixando exposto o pé com seu rígido escudo córneo.

Essa manobra tática (vide Lamarck) aperfeiçoou-se com a repetição,

Até que as partes envolvidas nessa artimanha adquiriram periodicidade,

E a torção, independente afora de qualquer estímulo externo,

Seguirá seu curso predeterminado, mesmo em um vidro de relógio no laboratório.

E assim foi, então, que a Véliger, triunfalmente torcida,

Adquiriu sua cabine à frente, nela abrigando seus apetrechos de navegação...

Uma Trocosfera, em armadura blindada, com um pé para operar a escotilha de proa,

E dupla-hélice para impulsioná-la para frente, com rapidez e prontidão.

Porém, quando esses novos velígeros retornaram ao lar de origem para ali aportar

E se estabelecerem como Gatrópodes com cavidade do mando à frente,

O Arqueomolusco buscou por uma fenda esconder sua vergonha e fracasso,

E, rangendo ameaçadoramente seus dentes córneos, sentiu chegada sua hora e, sucumbindo ao peso de seu revés, morreu.

Livro de Walter Garsteng - http://www.amazon.com/Larval-Forms-Other-Zoological-Verses/dp/0226284239

Walter Garsteng na rede social http://www.facebook.com/pages/Walter-Garstang/120373594675377

Para livros recentes de divulgação cientifica, acesse a seção Livros desse blog.

sábado, 9 de julho de 2011

Quadrinhos viram tema de estudo sobre zoologia

Por Gustavo Miranda

O fanatismo por história em quadrinhos (HQ’s) somado a um amplo conhecimento em zoologia, foi a inspiração inicial do Prof. Elidiomar Ribeiro da Silva em juntar essas duas áreas aparentemente distintas em um trabalho diferente. Unindo-se a ele um aluno entusiamado (este que vos escreve) com mais duas outras pessoas fãs de HQ’s, o resultado foi o trabaho intitulado “Inspiração animal para superpoderes e comportamentos nos universos Marvel e DC” apresentado na forma de pôster na III Jornada de Zoologia da UNIRIO. O trabalho acabou ganhando repercussão inesperada sendo tema de uma publicação do jornalista “Mutante X” no blog especializado em quadrinhos “O X da questão”. Segue abaixo a parte inicial do texto que continua no próprio blog. Vale a pena conferir!


Quadrinhos viram tema de estudo sobre zoologia

heróis do painél Inspiração AnimalAparentemente, animais e quadrinhos de super-heróis não tem qualquer ligação, correto? Nem tanto assim. Um grupo de alunos (sic) da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) desenvolveu um painel baseado na inspiração do comportamento animal para a criação de personagens de quadrinhos. Com o título Inspiração animal para superpoderes e comportamentos nos universos Marvel e DC, os autores Elidiomar Ribeiro da Silva, Gustavo Silva de Miranda, Rosilene Ramos Gonçalves eLuci Boa Nova Coelho dissertam sobre 50 personagens das duas editoras que têm seus nomes, poderes e comportamentos analisados à luz da Zoologia. Tudo com embasamento científico, claro, como manda um bom estudo.

Continue lendo aqui.

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