quinta-feira, 7 de julho de 2011

Obras infindas

por Gustavo Miranda

clip_image002Eu não entendo nada de restauração, muito menos de marcas de tinta, piso, tijolo... Mas gostaria muito de entender por que o Palácio Guanabara passa por tantas obras de restauração? Todo dia passo em frente a esse lugar e há muito tempo que a sede do Governo está em obras. Uma rápida busca na Internet elucida um pouco a questão.

Em outubro de 2009 teve início uma grande obra de restauração, onde se pretendia trocar telhado, forros, pisos, instalações elétricas e hidráulicas, além de realizar alterações para instalação de internet, pintura da fachada e adaptação para o acesso de cadeirantes. O custo inicial era de R$ 9 milhões e tinha previsão de acontecer em 12 meses. Tratando-se de um local histórico e que estava sem restauro há muitos anos, é até justificável esse investimento. Contudo, já estamos em 2011 e as obras ainda não acabaram. Previsões indicam o término em Julho, mas o custo que inicialmente era de quase dez milhões está em R$ 16 milhões. Essa parece ser mais uma daquelas obras que enchem o bolso de políticos e enriquecem presidentes e donos de empresas, algo corriqueiro em nossas vidas, como nas faraônicas Cidade da Música, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos... Enquanto isso, bombeiros e professores continuam a receber salários medíocres.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O canto da cigarra

Para aqueles que ainda acham que as cigarras cantam até explodir...

E para aqueles que admiram o impressionante ciclo de vida desses animais.


domingo, 29 de maio de 2011

Educação e criatividade

por Gustavo Miranda
Educação é muito mais do que aprender a ler e a escrever. É na escola que as crianças descobrem seus talentos escondidos e, infelizmente, é onde elas perdem todo o seu potencial. O ensino virou uma grande receita de bolo, onde não se estimula as férteis mentes a pensar e a desenvolver o lado criativo.
Em dois TED’s Sir Ken Robinson trata brilhantemente desse assunto (com legenda em português). Vale a pena conferir.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Rumo ao fim (?)

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Foi aprovado pela Câmara dos Deputados a emenda 164 do Novo Código Florestal (273 votos a favor, 182 contra e 2 abstenções). A Emenda 164, de autoria do deputado Paulo Piau (PMDB-MG) e colaboradores, libera plantações e pastos feitos em áreas de preservação permanente (APPs) até julho de 2008. Na prática ela anistia quem desmatou, o que não é aceito pelo governo segundo a presidente Dilma Rousseff. Além disso, a emenda transfere para os estados, em conjunto com a União, legislar sobre o meio ambiente. Dessa forma, os estados terão autonomia para criar e executar seus programas de regularização para as áreas de preservação.

Tal legislação ainda passará pelas mãos do Senado e, caso não sofra nenhuma alteração, pelas mãos da presidente, cabendo a ela aprovar ou vetar a decisão. Quanto a nós, só nos resta esperar que o mínimo de sanidade mental dessas pessoas não deixe esse absurdo sair do papel.

Ouça a rádio câmara.


Mais informações:

http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/MEIO-AMBIENTE/197553-CAMARA-APROVA-MUDANCA-EM-REGRAS-SOBRE-APPS-NO-TEXTO-DO-CODIGO-FLORESTAL.html

http://g1.globo.com/politica/noticia/2011/05/base-contraria-governo-e-aprova-emenda-polemica-do-codigo-florestal.html

http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/2011/05/24/camara-aprova-texto-base-do-novo-codigo-florestal-deputados-podem-votar-destaques-que-mudam-projeto.jhtm

http://www.clicrbs.com.br/pioneiro/rs/plantao/10,3323205,Deputados-aprovam-emenda-que-modifica-novo-Codigo-Florestal.html

terça-feira, 24 de maio de 2011

Educação e indignação

Por Gustavo Miranda

A educação pública no Brasil é precária e todos (menos os políticos) sabem muito bem das condições que alunos e professores estão expostos. Não é a toa que o Brasil é um dos piores países em rendimento escolar no mundo, não é a toa que crianças chegam ao 6º ano sem saber ler e escrever. Quem é professor ou conhece alguém que assumiu essa tão imprestigiada profissão, sabe bem que o péssimo rendimento escolar dos alunos não é devido à má qualificação desses profissionais. Muito pelo contrário, em diversas escolas públicas existe pessoal com especialização, mestrado e doutorado, e estes recebem um salário baixíssimo para ficar o dia inteiro engolindo giz e desaforo de alunos mal educados.

Sob esta e muitas outras indignações, a professora Amanda Gurgel silenciou deputados em uma audiência pública no Rio Grande do Norte. Vale a pena conferir o depoimento de quem vive na pele o sacrifício da profissão que era para ser a mais valorizada em qualquer país.

 

terça-feira, 22 de março de 2011

Um empurrão nos desavisados

Por Gustavo Miranda

O carnaval passou e ficaclip_image002m as lembranças dos desfiles, dos sambas, dos blocos, das festas e o desagradável cheiro de xixi. Mesmo com esforço da prefeitura do Rio em colocar banheiros químicos nas ruas, parece que não foi suficiente para o número de foliões mijões. Olhando a proporção número de banheiros químicos X número de mijões, é até explicável (não justificável) que tenha se formado piscinas de urina em algumas partes da cidade.

clip_image004O problema é que mijar na rua virou um hábito para os cariocas (um histórico do xixi no Rio) e é muito fácil ver pessoas indo para o trabalho, parar em árvores e regá-la com suas excretas. Não que isso seja ruim para as plantas, o nitrogênio da urina em quantidade moderada é reaproveitado, mas é ruim para todos os que passam pelo local depois, por causa do mau cheiro. Será que o indivíduo não consegue se segurar até algum lugar que tenha um mísero vaso sanitário? O pior é que após a realização da estréia de um lugar como banheiro público, várias pessoas começam a usá-lo da mesma forma e o fudum só aumenta. Esse odor característico é de amônia, o produto resultante da ação de bactérias com a urina. Essa mesma reação pode ser muito bem aproveitada na confecção de tijolos, onde se mistura areia, xixi e as tais bactérias. Então, uma solução talvez fosse estimular essas pessoas a andarem com uma garrafa para armazenar todo o xixi que fariam na rua. Depois é só eles venderem para alguma xixi-olaria.

Porém, existe outra solução que gostaríamos de lançar agora. É a campanha “Empurrão no Mijão”. Simplesmente quando você vir alguém fazendo xixi na rua chegue por trás dela sem ser percebido e dê um empurrão. Obviamente a pessoa vai se mijar toda, e é justamente essa a intenção. Não vai ser nada agradável para ela chegar no trabalho, na escola ou na faculdade fedendo a xixi e com a calça molhada. Dessa forma, esse sujeito dificilmente vai repetir o ato. Uma sugestão é que se saiba correr rápido, para caso haja alguma reação, você estar longe quando o meliante se recuperar do susto.

Caso você ache a campanha acima um pouco arriscada, nós estimulamos o protesto do “Ôô mijão”. Nesta, já amplamente conhecida, você só tem que dar um alto grito com os dizeres anteriores, e fazer com que a pessoa que está tirando água do joelho, se sinta constrangida por realizar tal ato na rua à vista de todos. Com ações como essa, quem sabe um dia, conseguiremos extinguir essa massa de mijões sem noção.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Samba para o Mistério da Vida

Por Gustavo Miranda

Neste ano de 20clip_image00211 o carnaval carioca vai trazer à avenida do samba uma das mais ilustres figuras da ciência: Charles Darwin. A escola União da Ilha vai desfilar com o samba-enredo “Mistério da Vida” e vai fazer uma viagem no tempo para contar a evolução das espécies e as viagens do naturalista inglês. Infelizmente, a agremiação foi uma das escolas que mais se prejudicou com o incêndio que acometeu a cidade do samba, mas, de qualquer forma, a ciência será levada à Marquês de Sapucaí de uma forma mais descontraída. Segue abaixo o samba-enredo da escola.

Mistério da Vida

Autores: Gugu das Candongas, Marquinhus do Banjo, João Paulo, Márcio André Filho, Arlindo Neto e Ito Melodia

Minha alegria vai girar o mundo
Aventureira vai cruzando o mar
Trazendo Darwin na memória
Mais uma história vou desvendar
Um relicário de beleza natural
É o esplendor do carnaval
Que maravilha, nessa terra vou desembarcar
O show da Ilha vai começar

No fundo do mar eu vi brotar
Se multiplicar a vida
Mistérios vão se revelar
Nas águas que vão me levar… a caminhar

A terra abriu um sorriso
E o paraíso vai me ver chegar
Seres estão antenados
Pequenos alados bailando no ar
Lindos animais na passarela
E lá no céu, a mais linda aquarela
Do alto surgiu diferente
Não sei se é bicho, não sei se é gente?
Somos frutos do mesmo lugar
A árvore da vida vamos preservar

 

Hoje eu quero brindar… com a Ilha
Nessa avenida dos sonhos brilhar
O meu amanhã, só Deus saberá
A vida vamos celebrar

Por essa última estrofe, Darwin deve ter se remexido no caixão. Que a seleção natural não atue negativamente sobre a União da Ilha.

sábado, 29 de janeiro de 2011

As orquídeas de Horta

Por Gustavo Miranda

A mídia escrita é um meio responsável por causar enorme influência na população. Os jornais, as revistas, os livros e a Internet formam a opinião e moldam a cabeça de milhares de pessoas. Os autores que neles escrevem têm a grande oportunidade de passar informações úteis e corretas ao público. Porém, não é sempre que isso acontece, principalmente quando se entra no campo da ciência.

No dia 26 de dezembro de 2010 saiu uma crônica no jornal O Globo de Luiz Paulo Horta com o título “Sobre a existência de Deus” (http://sergyovitro.blogspot.com/2010/12/sobre-existencia-de-deus-luiz-paulo.html). O autor é jornalista, crítico musical e ocupa cadeira na Academia Brasileira de Letras. Porém, ao que parece, seu vasto conhecimento sobre música e literatura não se estende ao campo da biologia, em especial a Biologia Evolutiva.

Nessa crônica o autor trata muito superficialmente da histórica discussão entre Ciência versus Religião. Porém, aqui o foco principal não será esse tema, mas sim o que diz respeito a essa passagem de seu texto:

“Pense em certas manifestações da natureza – por exemplo, o mundo das flores. A mim, pessoalmente, emociona e deslumbra o verificar que em cada flor, alguém ou alguma coisa estava em busca da perfeição. Em todas elas, sem exceção, vê-se a procura do detalhe que, segundo Goethe, traía a presença do gênio. Nenhuma delas – muito menos a orquídea – dá impressão de ser fruto do acaso, o resultado de uma série de adaptações. E o que você pode dizer de uma aplica-se a dezenas, a centenas, a milhares. Nessa espantosa proliferação de beleza, não há algo a mais do que o acaso? Mas se, daí você quiser extrair uma verdade científica, fracassará lamentavelmente. Porque o cientista quererá discutir flor a flor; a cada uma, aplicará métodos de raciocínio que se afastam de uma intuição generalizante.”

O mundo das flores citado pelo autor, assim como qualquer outro reiclip_image002no da natureza (dos animais, dos fungos, das bactérias, dos protozoários, dos vírus) está submetido ao mesmo processo de sobrevivência, que é a seleção natural. Talvez qualquer pessoa com a mínima sensibilidade, se emociona ao observar os detalhes das flores de uma orquídea, e um conhecimento um pouco mais profundo em evolução consegue explicar as inúmeras adaptações que sua flor passou e passa até atingir tal forma. Como exemplo, tem-se o fenômeno da ressupinação, que é muito comum na família Orchidacea chegando a ser considerada uma das características diagnósticas do grupo.

Ressupinação é o fenômeno no qual os botões florais das orquídeas fazem um giro de 180º no eixo do pecíolo, como mostra o desenho B da figura ao lado. Isso faz com que a pétala que estava na região dorsal vá para a região ventral. Quando os botões se abrem, essa pétala (que é chamada de labelo) revela sua coloração diferenciada e vistosa, o que atrai insetos que polinizam as flores.

Apesar de ainda não existir nenhuma sugestão formal, pode-se pressupor o processo pelo qual a ressupinação surgiu. Provavelmente havia uma população de orquídeas ancestrais que floresciam normalmente, sem sofrer rotação alguma de seu eixo. Considerando que a coloração chamativa do labelo já existia, em algum período durante o processo evolutivo da planta, surgiu, de forma aleatória, uma mutação que fez com as flores de parte da população realizassem um pequeno giro, expondo a coloração chamativa da pétala mais que as outras da população. Aquelas que chamavam mais atenção dos polinizadores tiveram maior sucesso que aquelas que não chamavam tanta atenção, uma vez que eram mais polinizadas e deixavam maior quantidade de descendentes. Logo, essa característica se espalhou pela população se tornando comum. Porém, rotações cada vez maiores surgiram durante o processo evolutivo dessa família, fazendo com que as que expunham mais a coloração chamativa, atraiam mais polinizadores e obtinham maior sucesso reprodutivo. E isso foi ocorrendo até as pétalas alcançarem a conformação que conhecemos hoje. E não para por aí.

clip_image004Muitas espécies de orquídeas além de ter coloração vistosa, produzem odores que confundem seus polinizadores ao produzir cheiro igual ao da fêmea, como a Ophrys speculum (figura ao lado). O macho, atraído pelo feromônio extremamete parecido com o da fêmea, parte para seu encontro. Ao chegar no local de origem do odor, ele copula com a flor polinizando a planta. Aplicando o mesmo raciocínio que na ressupinação, o odor parecido com o da fêmea do besouro produzido pela Ophrys speculum provavelmente surgiu ao acaso, e aquela planta com maior atrativos para os polinizadores obteve maior sucesso que aquelas que não produziam. Daí em diante o processo continuou até surgir populações que produziam o feromônio mais semelhante com o original.

Com isso, percebe-se que o que se aplica a um gênero de orquídea, como a ressupinação, se aplica a todos da família, uma vez que essa foi uma característica que surgiu no ancestral e se espalhou por todos os descendentes. Dessa forma, não há a necessidade de se “explicar flor a flor”, como disse o autor, já que a quantidade de gêneros e espécies de uma família pode chegar a dezenas ou centenas. De fato, cada espécie traz consigo uma história particular de sua trajetória evolutiva, como no caso da Ophrys speculum. Mas, de forma geral, Darwin deixou muito bem explicado para aqueles que tivessem o interesse em descobrir como surgiu toda diversidade que hoje conhecemos, que não existe melhor intuição generalizante que a seleção natural.

Referência Bibliográfica

Fischer et al, 2007. Evolution of resupination in Malagasy species of Bulbophyllum (Orchidaceae).Molecular and Phylogenetics and Evolution 45, 358-376.

Sugestão:

McGinley, 2003. The co-evolution of a beetle and a plant. DNA evidence shoes suvival of ancient association. Agricultural Experiment Station Research Report, 14-15

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